Desde muito pequeno me acostumei com os telefonemas de Suely. Era assim:
— "Alôaaamm" — ela tinha um sotaque carioca carregado.
— Alô!
— É o Filiapeanm? (ela sempre me chamou pelo segundo nome)
— É sim Tia Suely...
— Cadê sua mãean?
— 1 minuto.
Daí eu escutava minha mãe berrar "Suuuuuuuuu!!" E as duas ficavam penduradas no telefone por umas 2 horas.
Os anos passaram e Suely continuou ligando; e eu , continuei atendendo como sempre, — sem dar muita bola — até que comecei a ficar mais velho e, talvez, mais atento as coisas e pessoas a minha volta.
É que ela já tinha "uma certa idade" — não vou dedurar ninguém aqui — e portanto já não tinha pai, nem mãe, só um irmão que morava sei lá onde; e, como não tinha marido, morava sozinha. Bom, sozinha não: ela tinha um papagaio.
Nos últimos anos, como sempre, atendi várias ligações de Suely, que passou a errar o meu nome "É o Guxxtavoamm?" — Gustavo é o nome do meu irmão, que quando atendia ela perguntava "É o Filiapeanm?".
— “HAHA, dexculpa Filiapeanmm! Eu nunca acerrto néaam?"
Ela nunca acertava. Mas um dia desses ela acertou e quando perguntou “"Filiapeanm"? A voz dela deu uma tremida, uma desafinada como se ela estivesse chorando — algo que só concluí depois de ter colocado o telefone no gancho, a mania de responder tudo no piloto automático. Então mudei: a partir deste dia sempre que Suely ligou, e minha mãe estando ou não estando, puxei conversa. Falávamos de sei lá o que, escolas de samba (ela era louca por carnaval e pela “Mangueira”), pele (eu indiquei vitamina C 10% em gel e ela manipulou na farmácia e me contou que era incrível e que ela já estava no terceiro tubo), inclusive, passei a receita do suco Madonna pra ela. “Eu A-doaroanm Madonna!!”
Ela adorava Madonna, cigarros, canais de esportes, leite condensado (cruzes), artes — ela era artista e pintava muito bem — e picar papel quando estava triste.
***
Estou contando tudo isso porque nessa última sexta-feira a Suely morreu. Não vou entrar em detalhes, ela estava meio mal por isso e por aquilo e, enfim, nessa sexta o coração dela parou de vez.
E de repente me vi naquela capela de cemitério olhando para Suely dentro do caixão, com uma maquiagem leve e unhas clarinhas e fiquei puto: ela gostava de usar os olhos carregadões mega pintados e pretos — era meio mística — e adorava uma unha vermelha. Nada tinha nada a ver com ela ali e eu sei que ela em algum lugar teria achado aquilo um porre. Não havia muita gente. Um punhado de senhoras, umas com cara de madame, outras com cara de derrame, uns 2 senhores e um Padre que fez um tipo de missa — bem impessoal — e um longo discurso meio péssimo sobre culpa e do quanto devemos fazer pelas pessoas em vida. Não demorou e a voz tremula de Suely começou a bater dolorido na minha cabeça: senti uma tristeza horrível imaginando ela e seu papagaio sozinhos em um apartamento que nunca conheci. “Será que ela ficou picando papel no dia daquela ligação?” Uns pensamentos, que agora parecem tão bobos, mas que na hora, não sei explicar, me doeram como se Suely fosse uma amiga muito próxima, como se aquela ligação absurdamente tivesse o poder de mudar tudo.
Sei que depois que o discurso do Padre acabou, um senhor loiro com cara de Suely — e o mesmo sotaque carregado — levantou, disse ser o irmão dela — bingo! — que veio de não sei onde, etc. Daí a coisa ficou boa: ele agradeceu o carinho, agradeceu a missa, mas disse que eram ambos agnósticos e que buscavam Deus “de outras formas (e vocês não queiram imaginar a cara do Padre e das senhoras ali presentes) e daí a coisa ficou foi ótima: ele começou a descrever a última experiência “parapsicológica-transcendental” de Suely (ambos se falavam por telefone 5 vezes ao dia) e que ela havia flutuado pelo espaço (mais uma pausa para imaginar a cara do Padre) e que ela “estava ótima”.
Não deu muito certo, mas eu estava adorando — e afundando a cara no chão porque se olhasse pra cara do meu irmão, que estava ali comigo, eu iria me acabar de rir.
E daí a coisa que já estava ótima, ficou ainda melhor: surpreendentemente apesar daquela história maluca, ele concluiu de forma fantástica:
“...como vocês devem imaginar eu vivia chamando Suely para morar comigo e ela dizia “Ah, mas e os meus amigos? Meus amigos estão aqui!”. Os amigos são mesmo a família que a gente escolhe, e a família dela são vocês todos que estão aqui”.
Foi tudo muito emocionante até ele mudar de novo o discurso e contar como ela foi rainha do carnaval de 1900 e fumaça e voltar a arregalar os olhos da velharada. Mas não parou ai: um casal gay chegou acompanhado de uma mulher de cabelos mega vermelhos com os olhos mega pintados, abraçando todo mundo, muito emocionados, muito sorridentes e com o celular tocando. A mulher de cabelo vermelho disse pra alguém gesticulando “ENERGIA!”. Adorei, achei bem mais Suely, e com certeza não fui o único a gostar da movimentação porque já hora do enterro, naquele momento terrível que o caixão vai baixando, uma das senhoras que fizeram careta, surpreendeu todo mundo puxando uma marchinha de carnaval:
“Um Pierrô apaixonado que vivia só cantando, por causa de uma Colombina acabou chorando... Acabou chorando... A Colombina entrou num butiquim, bebeu, bebeu, saiu assim, assim, dizendo "Pierrô, cacete! Vai tomar sorvete com o Arlequim! "
Acho que ela lembrou de como era Suely, e acho que todo mundo também lembrou porque todo mundo foi no embalo e cantou junto.
Antes de ir embora, fui cumprimentar o irmão de Suely e contei que ela ligava muito lá pra casa e que por vezes eu conversava com ela coisa e tal. Ele disse “Ah, então você é o Filipeanm! Ela me falava de você! Dizia que vocês eram muito amigos!
— Nós éramos!
O enterro terminou com um abraço apertado, e eu termino este texto com a certeza de que não entendo porra nenhuma sobre a morte, mas que uma conversa boba de 15 minutos pode significar muito para algumas pessoas e que certamente não nos damos conta do tamanho de pequenas pessoas em nossas vidas. Também tenho certeza de que aquele dia — aquele, Suely, que não conversamos — não teria mudado muita coisa, mas sem dúvida, seria mais uma conversa para lembrar; também tenho certeza de que esse dia, esse dia que não nos falamos, não significa nada comparado as nossas tantas outras conversas de outros tantos dias — e aos incríveis benefícios da minha dica sobre vitamina C!
Adeus minha amiga.
Muita saudade,
“Filiapeanm”